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sexta-feira, maio 15, 2009

Discurso do escravo

Um dos aspectos mais mortais da atual cultura é o de fazer crer que seja a única cultura...e ao invés, é simplesmente a pior. Bom, os exemplos estão no coração de cada um...por exemplo, o fato de ir trabalhar seis dias por semana é a coisa mais pesada que se possa imaginar.
Como se pode roubar a vida dos seres humanos em troca de comida, cama, do carrinho mais ou menos...
Enquanto ate ontem eu acreditava que me fizessem um favor quando me davam um trabalho, hoje eu penso: “Esses filhos da puta que me roubam a única vida que tenho, porque não terei uma outra, tenho somente essa...e eles me fazem ir trabalhar 5, 6 dias na semana e me deixam um miserável dia...para fazer o que? Como faço para construir a vida em um único dia?!”
Agora, não devemos colocar flores na janela da própria cela onde se é prisioneiro porque senão, mesmo que um dia a porta esteja aberta, não iremos querer sair...
Devemos sempre pensar, com uma consciência perfeita:
“Eles estão roubando nossas vidas, em troca de 1000, 2000 quando muito, enquanto eu sou uma obra de arte de valor incalculável”
Não entendo porque um quadro do Van Gogh deva valer 77 milhões de dólares e um ser humano 300, 400 dólares por mês, quando muito.
Segundo a minha opinião, com as novas tecnologias, os lucros aumentaram pelo menos 100 vezes e o trabalho deveria diminuir pelo menos 10 vezes! Ao contrario não! O horário de trabalho continua o mesmo. Hoje eu sei que me roubam o bem mais precioso que me foi dado pela natureza. Pense na coisa mais bonita que a natureza propõem, que é, digamos, o fazer amor.
Imagina que você viva em um sistema político, econômico e social onde as pessoas são obrigadas, com aqueles que as vigia, de fazer amor 8 horas por dia...seria uma verdadeira tortura...e, portanto porque não deveria ser a mesma coisa para o trabalho, que é certamente menos agradável do que fazer amor, não? Por exemplo, o fato das pessoas irem trabalhar seis dias por semana...tudo bem, não tem uma metralhadora na nuca...o fazem, porque fazem o discurso “Melhor lamber o chão ou morrer?”
“Melhor lamber o chão” mas o que é horrível nesta cultura é que “lamber o chão” transformou-se inclusive em uma carreira, entende?
Mas é monstruoso que o cara deva ir trabalhar 8 horas por dia e deva ser agradecido a quem lhe faz lamber o chão, entende?
Tudo isso é “subjetivamente” monstruoso, mas lá onde a consciência produz consciência, tudo isso é “efetivamente” monstruoso...
Entrevistador: “Sim, tudo bem, mas porem é irreversível a situação”
Sim, você faz exatamente o discurso em defesa de quem te oprime, porque é o típico discurso do escravo, não? O verdadeiro escravo defende o patrão, não o combate. Porque o escravo não é tanto o que tem uma corrente aos pés quanto aquele que não consegue mais imaginar a liberdade. Mas com respeito ao que você me disse agora: Quando Galileu anunciou que era a Terra a girar em torno do Sol, teve seguramente alguém como você que deve ter falado: “Ah sim! São 22 séculos que todos dizem que é o Sol a girar em torno, mas chega você e diz essa cagada...e como fará para explicar a todos os seres humanos?” e ele “ não é um problema meu, senhor...”. “Então olha, nos faremos um poço e te jogaremos dentro ate você dizer que não é verdade, assim tudo volta ao normal”. Entendeu?
Porque todo o ocidente vive em uma área de beneficio, porque esta roubando 8/10 dos bens do resto do mundo. Portanto não é que estamos vivendo em um regime político capaz de nos dar a televisão, o carro...não.
É um sistema político que sabe roubar 8/10 de 3/4 de mundo e da um pouco de bem-estar a 1/4 de mundo, que somos nos...
Portanto meus senhores, o se acorda...ou se finge dormir...ou precisamos perceber que estamos todos mortos.

Traduçao livre de parte da entrevista com o cineasta italiano Silvano Agosti.